Vencendo Obstáculos
Nasci numa família muito humilde e morei minha infância
e adolescência toda na periferia de Sampa num lugar chamado
São Miguel Paulista
Meus pais são nordestinos que na juventude fizeram como outros
vários, indo para São Paulo se aventurar à
procura de uma vida melhor. Meu papai, Seu Calado, era metalúrgico
e agora é dono de um pequeno boteco, e minha mamãe
querida, era costureira e agora ajuda pessoas doentes... Bem, lá
em casa dinheiro sempre foi coisa rara, e, às vezes, eu pensava
que seria forçado, assim como tantos outros adolescentes
da região, a fazer algo que detestasse, pela necessidade
de ajudar no orçamento de casa.
De fato, desde pequeno, o caladinho se virava: vendia cotonette
nas ruas, livros de porta em porta, pratas e folheados e até
telemarketing. Conseguia assim pagar o material escolar e a condução,
aliviando um pouco as despesas domésticas. Logo que entrei
para a escola técnica de Desenho de Comunicação,
deparei-me com outro obstáculo: o material exigido era muito
caro, e a escola muito longe. A grana não dava... Peguei
um jornal e comecei a ligar para companhias de animação
de festas. Mal sabia que estava dando um importante passo em minha
carreira.
Com o tempo, percebi que o trabalho de animador de festas me dava
mais satisfação que a escola, e decidi largar a escola
e me enfiar nas Oficinas Culturais e Casas de Cultura pela cidade.
Fiz cursos de Teatro, Comedia Dellart, e Clown (palhaço)...
Fui percebendo que para poder ser realmente bom tinha que fazer
cursos mais específicos, com os melhores profissionais da
área... O que aconteceu de novo na vida do menino de S.Miguel?
O velho problema da grana! A arte no nosso país é
muito elitista, as oficinas e cursos particulares eram um absurdo
pra mim! Mas eu já estava entregue para a vida da arte e
não mais podia regressar. Uma importante decisão estava
prestes a ser tomada: nunca mais grana será empecilho na
minha vida!!!
A partir daí comecei a entrar em tudo quanto era curso, e
o fazia até o instrutor descobrir que eu não havia
pagado... Saía de um, entrava em outro, enrolava aqui, acabava
cursando um outro ali... E assim eu consegui minha formação
de Mímico e tantas outras coisas com pessoas tão maravilhosas
como Denise Stoklos, Fernando Vieira, Coutinho e Helena e por aí
vai... (Depois que já estava no meio teatral, eu sempre escutava
historias de pessoas, a maioria de classe média ou alta,
que falavam de suas experiências em outros paises e ficava
louquinho imaginando como seria, e de novo o fantasma da grana me
fazia pensar como seria difícil juntar uma tal quantia para
poder fazer uma viagem dessas. Era uma realidade muito distante...
Mas o sonho nunca morreu dentro de mim e sempre falava coisas do
tipo: “Quando eu for pra Londres eu quero fazer performance
nas ruas”, ou, “um dia eu vou pra França...”).
Certo dia começava a oportunidade que o menino de São
Miguel esperava: A vida escutou meu sonho e guardou meu presente
para um momento em que estivesse preparado... Não era mais
uma mera questão de grana.
topo
O Circo
Certa vez, fui ao Rio de Janeiro para trabalhar em um evento com
uma amiga trapezista chamada Raquel. Ela já havia trabalhado
no circo Spacial e quando voltamos pra São Paulo ela me convidou
pra ver uma apresentação de uma escola de Circo em
que o namorado dela estaria se apresentando... Quando chegamos,
eu me senti como uma criança, era mágico: o cheiro,as
cores, enfim, toda a “magia do circo” pairava ao meu
redor. Em poucos minutos já estava convencido que queria
ter uma experiência, algum dia, com algum circo... De repente
Raquel me chama e me apresenta ao Miro! - diretor artístico
do circo. Conversamos por uma noite inteira sobre palhaço,
mímica e circo... Foi uma noite esplêndida!
Uns 5 meses se passaram. Eu estava dividindo um apartamento com
um amigão (o Estevão). Trabalhava com eventos, era
mais conhecido como mímico que palhaço, apesar de
sempre ter feito mímica cômica.
Em um dia de folga, estava eu no bar do Zé, na Maria Antônia,
batendo um papo com uma amiga, já estávamos na segunda
breja, quando o telefone tocou:
-Alo?
-Alo, Calado?
-E' ele!
-Oi Calado. Aqui é o Miro do Spacial. Tô te ligando
porque estou precisando de um palhaço no espetáculo!
-...! -meus olhos se encheram de alegria, eu ria que nem criança!
-Amanha nos vemos então. Até lá! |
Eu nem lembrava que tinha dado o meu numero do
celular a ele. Fiquei feliz da vida e em 3 dias me mudei de mala
e cuia para o Circo...
topo
O Palhaço e a Trapezista
Quando comecei, o circo estava em Campinas. A primeira fase foi
de experiência, para conhecer todo o show... Mas de repente
foi decidido que eu iria ficar dentro do espetáculo o show
inteiro!!! Não podia acreditar...Mal comecei e já
tinha ganhado todo esse espaço, interagindo com todas as
performances!!!
A performance da qual eu mais gostava de interagir era a da trupe
"THE FENIX" - os trapezistas!.O número do trapézio
iniciava no escuro - eu ficava sentado numa meia lua no canto direito
do picadeiro, e de lá, fazia, exageradamente, todos os meus
sentimentos sobre a performance (por exemplo: na hora do triplo
salto mortal eu tapava os olhos e tremia as pernas de medo...).
Tudo escuro e, de repente, surge o barulho de um helicóptero
(tipo o do The Wall do Pink Floyd) e acende uma luz de foco em uma
mulher, linda, pendurada pelo braço numa postura de anjo,
subindo aos céus. Era a Bia. Quando ela chega lá em
cima, passa para as mãos do segundo porto, e, de repente,
explodem fogos, como em um conserto de Rock, e finalmente acendem-se
todas as luzes e o espetáculo começa. O palhaço,
lá em baixo, sem conseguir tirar os olhos daquela pequena
do sorriso mais lindo do mundo...
Não demoraria muito pra que as pessoas começassem
a perceber, mas ele não estava nem ai... Olhava e se deleitava
com a forma mais perfeita que Deus poderia ter criado para deleite
de seus olhos.
topo
A Fuga
Alguns meses se passaram enquanto eu me aprimorava como o palhaço
principal do circo, namorando a trapezista, rodando o Brasil com
a caravana circense.
Um belo dia, minha cunhada Emilia, que faz um número de força
capilar é convidada a integrar um circo americano. A proposta
era para fechar um contrato de um ano e viajar com o circo em turnê
pelos EUA. Era uma oportunidade única e todos ficaram com
os olhos brilhando. A Bia exercia um papel fundamental nesse número,
que era a preparação de todo o equipamento, o guincho
e a amarração do cabelo da irmã. Parecia fácil
colocá-la no mesmo barco... Vocês devem estar se perguntando:
e o menino de São Miguel? O que acontecerá com ele?
Perderá sua amada e verá de perto as chances que ele
tanto quis e não teve?
Não... Não podia ficar de braços cruzados.
Já havíamos até pensado em casamento... Como
deixar isso acontecer?... Opa! Casamento? Mas é claro! É
isso!
Leandro e Bia se casaram e o empresário circense se viu forçado
a comprar mais uma passagem, colocando o menino de São Miguel
para trabalhar como mão de obra na montagem do circo!
Os três assinaram contrato e rumaram para os EUA para uma
nova fase de suas vidas.
topo
Ascensão
A língua não seria problema para um mímico,
mas a palavras aos poucos foram compreendidas. O que também
tive de fazer compreender é que eu poderia fazer muito mais
que um simples trabalho braçal... E não foi em vão!
Em três meses eu já era o palhaço principal!!!
topo
Trabalhos “Normais”
...Terminada a temporada do circo, decidimos não voltar para
o Brasil e arriscar uma vida "normal" no sul dos Estados
Unidos em Atlanta, Geórgia.
Posso dizer que não foi fácil. Claro que no começo
tudo era novidade, vivendo em uma casa tipicamente americana, conhecendo
novos amigos... Mas não foi preciso esperar mais que uma
semana pra que começássemos a nos sentir longe de
qualquer tipo de arte, cercados por pessoas que tinham valores de
vida bem diferentes dos nossos. Isso sem contar que de alguma forma
tínhamos que conseguir dinheiro pra pagar aluguel, comida...
Nessas horas não se pode escolher muito, e pra falar a verdade,
não tínhamos muitas opções. Bia foi
trabalhar como faxineira e eu em um McDonald's, onde fiz muitos
amigos.
Contudo, não conseguíamos nos adaptar. Eles pagavam
muito mal e nos faziam trabalhar como loucos. Pra mim, já
não tinha mais jeito. Passei para a construção
civil, instalando ar-condicionado (trabalho pesado, que até
pagava bem, mas não era pra mim). Fui então para uma
fabrica de janelas, onde furei muito minhas mãos com aqueles
grampos gigantes de pistolas de ar. E cada novo ferimento em minhas
mãos doía mais na alma que na carne. Afinal, tudo
que eu tinha lutado tanto pra conseguir, a minha arte, ate então
era expressa principalmente com as minhas mãos. Como continuar
a furar, dessa maneira estúpida, todos os meus sonhos?
Novamente parti pra outra e dessa vez fui para o Dunkin Donuts.
Claro que teve todo um processo de aprendizado, aprender a como
lidar com quantidades absurdas de massa pra fazer os tão
famosos donuts....
Engordei muito... Muita tentação né!?
Mas também não tinha jeito, o gerente ali do lado,
e eu nem aí, jogando malabares com a massa, fazendo mímica
pra galera que trabalhava lá. Fazia daquela cozinha o meu
picadeiro, virei a sensação. Isso fazia com que eu
percebesse o quanto as pessoas se identificavam com a minha arte,
e eu me sentia mal por não estar fazendo o que realmente
amava.
topo
Performances nas ruas de NY
Decidido a não mais me deixar levar pela vida e sim lutar
pelos meus ideais decidi partir para Nova Yorque. Só percebi
tarde demais, quando já estava lá, que não
tinha sido em uma boa hora... Afinal era dezembro, e fazia muito,muito
frio!
Meus planos de trabalhar nas ruas foram literalmente petrificados.
Tarefa impossível com 15 centímetros de neve e um
frio de 5 graus (Celsius) abaixo de zero. Tentei então as
estações de metro e foi isso o que nos sustentou pelo
inverno inteiro, até a chegada da primavera, quando pude
sair para as ruas fazendo estatua, mímica...
Bia e eu trabalhamos juntos durante toda a primavera com a performance
"Mime for Love", uma estátua de um casal com roupas
do século 18/19, tudo dourado e muito romântico (muitas
pessoas elogiavam dizendo ser a melhor street performance da época!!)...
Com a chegada do verão eu voltei a fazer mímica nas
ruas...
topo
Sonho de Alice
O Verão foi muito bom, trabalhando de terça a domingo
na frente do Metropolitan Museum. Tirava muitas fotos com turistas
do mundo inteiro e ganhava muitas verdinhas. A Bia estudava Inglês
e eu mais mímica com a Selma Treviño. Fizemos muitos
amigos nessa fase, o que dá muita saudade.
Lembro que no verão começamos a pensar em aumentar
a família. Na verdade, desde que chegamos nos EUA todos diziam
para termos um bebe por lá, mas queríamos primeiro
ter uma casa para depois ter um filho. Já tínhamos
decidido os possíveis nomes desde o namoro, se fosse menino
chamaria Lucas, se menina Maria Luiza. Mas em um sonho de uma noite
de verão a Bia viu uma menina que dizia ser nossa filha e
que se chamaria Alice. A Bia acordou doidinha para falar sobre o
sonho, aí ficou decidido que se nosso primeiro filho fosse
menina se chamaria Alice. Isso tudo aconteceu no verão de
2003.
Quando faltava pouco mais de um mês para acabar nosso visto,
a saudade bateu mais forte e resolvemos voltar. Afinal, não
tinha dólar que pagasse a
saudade que sentíamos da nossa terra e família.
A Bia voltou para o Trapézio do Spacial e eu comecei uma
nova
produção para levar para Arábia Saudita.
topo
Arábia Saudita
Para a Arábia, o casal romântico desta historia não
pôde viajar junto. Foram 2 meses e uns dias super difíceis
pela distância, mas muito legal pela diferença de cultura.
Ver a magia que o palhaço tinha ali, para aquelas pessoas
de tão diferente cultura... Conheci pessoas maravilhosas
e quebrei vários preconceitos que tinha com o Oriente Médio.
Na volta tínhamos (já estava com uma trupe de 36 artistas
brasileiros) uma escala em Paris-França...
topo
Paris, França
Meu Deus! Eu estava em Paris!!!! Não dava pra acreditar!
Depois de muito tempo pra conseguir um carimbo no meu passaporte,
eu e o Rogério (palhaço Banzé) pegamos o confuso
e imenso metrô de Paris e fomos para a Torre Eifel... Quando
vi aquele monte de ferro mais bonito do mundo as lágrimas
vieram ao canto dos olhos... Não dava pra parar de pensar
de onde eu tinha vindo e onde eu estava... Esqueci de comentar que
desci do avião já trajado de camiseta listrada, chapéu
e uma mochila com maquiagem... Ali na torre trabalhei por 3 horas
e fiz uma grana!!!!
Depois fomos fazer turismo de japonês: paramos na frente de
Nótre Dame tiramos uma foto, entramos vimos a Pietá
e saímos correndo pro Louvre, comemos uma maravilhosa salada
francesa e voltamos para o Brasil!
topo
O Retorno
A volta foi muito emocionante (você tem noção:
2 meses e meio sem ver a mulher da sua vida?)... Bem a partir desta
época começamos a construir nossa casinha e em alguns
meses já estávamos morando em nosso lar doce lar...
Iiiiiiiihhhh, lembra que tínhamos prometido ter um bebê
depois da casa própria!!?...
topo
A Melhor coisa do mundo!
Começamos a perceber algumas mudanças no corpo da
Bia. Ela já estava meio atrasada mas não tínhamos
certeza... Compramos um teste na farmácia e aí num
deu outra... UHUUUUU eu vou ser Paiiiii!!!! Tá louco, a felicidade
daquele dia dura até hoje!!!!! Bem o nome da nossa princesa
é Alice, que nasceu no dia 23 de janeiro de 2007 e vivemos
felizes... Sempre!!
topo
Final Feliz
Graças a Deus continuamos muito bem e felizes...
Se você acredita em algo e faz isso com amor (no meu caso
palhaçadas) o mundo irá retribuir seu trabalho, não
necessariamente com a "grana", mas com as realizações!!!
Por isso lhe digo: se você faz algo que realmente ama, não
desista,
acredite no seu sonho... Viver e se arriscar são as coisas
mais importantes e deliciosas que se pode fazer!
Espero que tenham gostado...
Fiquem em paz...
Calado
topo
|